Com perda de mais de 1 milhão de matrículas, ensino privado recorre a modelos preditivos para antecipar desistências e conter pressão financeira no setor
O Brasil registrou uma das maiores retrações de matrículas da educação básica das últimas décadas. Entre 2024 e 2025, mais de 1 milhão de alunos deixaram as escolas, reduzindo o total de 47,08 milhões para 46,01 milhões, segundo o Censo Escolar 2025 divulgado pelo Inep. O recuo foi superior ao observado no auge da pandemia e atingiu especialmente o ensino médio, que alcançou o menor número de estudantes do século XXI, com destaque para São Paulo, que perdeu mais de 250 mil alunos em um ano.
Embora parte da queda seja explicada pela redução da população em idade escolar, as escolas particulares também sentiram o impacto, com queda de 2,9% nas matrículas, índice superior ao da rede pública, que recuou 2,1%. Esse movimento ampliou a pressão sobre o setor privado, que já enfrenta aumento de custos operacionais, inadimplência crescente e competição reforçada por modelos híbridos, técnicos e novas soluções digitais.
Segundo a Fundação de Apoio à Tecnologia (Fundação FAT), que acompanha tendências do ensino privado, a evasão escolar deixou de seguir padrões lineares e passou a ser influenciada por fatores econômicos, comparações ampliadas entre escolas e busca por modelos pedagógicos mais alinhados ao perfil ou ao projeto de futuro dos alunos.
O professor Francisco Borges, consultor da FAT, explica que a evasão afeta toda a estrutura da instituição: “A perda de um aluno não impacta apenas a receita. Ela desorganiza o planejamento pedagógico, compromete o equilíbrio das turmas e pressiona ainda mais a gestão escolar.”
Além disso, o fenômeno apresenta dinâmicas distintas no país. “Nas capitais, há maior troca entre escolas de bairro; no interior, a sensibilidade a preço é determinante. Em ambos os cenários, antecipar sinais de risco tornou-se essencial”, completa Borges.
Com a crescente volatilidade das famílias, escolas particulares começam a adotar ferramentas já consolidadas em setores como telecom e varejo. São os modelos de análise preditiva que ajudam a prever o churn, a probabilidade de saída do cliente. A Datarisk, referência em modelagem de risco, explica que a educação vive agora a mesma lógica.
Para Joney Augusto Palma, Chief Product & Technology Officer da Datarisk, a evasão pode ser identificada semanas ou meses antes da ruptura. “Quando falamos em churn educacional, falamos em medir a probabilidade de uma família deixar a escola. Os sinais aparecem muito antes do pedido formal de cancelamento”.
As ferramentas analisam variáveis como histórico de pagamento, engajamento do aluno, comportamento em plataformas digitais, abertura de comunicados e sinais observados pela equipe pedagógica. “A escola geralmente descobre que perdeu uma família quando já é tarde demais. O modelo preditivo antecipa esse risco e permite ações personalizadas de retenção”, explica Palma.
De forma agregada, instituições que adotaram modelos preditivos têm registrado reduções expressivas na evasão, desde quedas relevantes nas transferências após ajustes de comunicação até reversão de intenções de saída a partir de contatos proativos e apoio financeiro direcionado.
Segundo Palma, a adoção dessas tecnologias inaugura uma nova fase na gestão escolar privada, marcada por decisões baseadas em dados e por estratégias de retenção contínuas. “Modelos preditivos não substituem o relacionamento. Eles o potencializam. A tecnologia ajuda a escola a enxergar o que está por trás do silêncio das famílias.”
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