Brasil dobra mortes por animais peçonhentos e pesquisadora aponta a desinformação como principal vilã

Após três décadas de estudos sobre a aranha-marrom, bióloga lança livro que desafia o senso comum e aponta a "biofobia" como entrave às políticas de saúde pública e manejo ambiental

O Brasil enfrenta uma crise silenciosa e crescente no que diz respeito a acidentes com animais peçonhentos. Segundo dados do Painel Epidemiológico do Ministério da Saúde, o país registrou 265 mortes em 2025 - o que representa o dobro do total contabilizado no ano anterior. Ao todo, foram notificados mais de 225 mil acidentes, sendo que as aranhas ocupam a segunda colocação, totalizando 7.757 registros de acidentes. Para a bióloga e doutora em Zoologia, Marta Luciane Fischer, a explicação para esse cenário reside na maneira com a qual a sociedade se relaciona com a natureza.

Após 30 anos dedicados ao estudo da aranha-marrom (Loxosceles intermedia) em Curitiba, epicentro mundial das pesquisas sobre a espécie, Fischer lança "Aranha-marrom: 30 anos de estudos biológicos, epidemiológicos e sociais", obra publicada em coedição pela PUCPRESS - editorada Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) -, e pela Editora UFPR. O livro desafia o senso comum com uma tese provocadora: o verdadeiro inimigo não é o veneno da aranha, mas a desinformação que alimenta o que a pesquisadora chama de “biofobia”: um medo instintivo e irracional da natureza que nos leva a destruir justamente os aliados biológicos que poderiam nos proteger. Esse comportamento acaba por dificultar a implementação de medidas de saúde pública e de manejo ambiental que seriam, de fato, eficazes.

"Passamos anos temendo e evitando o contato com os animais que coabitam conosco nas cidades, dizimando predadores da aranha-marrom e fortalecendo o desequilíbrio ambiental", afirma a pesquisadora. "A biofobia, alimentada por narrativas sensacionalistas, nos cegou para a solução mais simples, eficaz e ecológica: permitir que a própria natureza faça o seu trabalho, aliada a um manejo consciente do espaço”.

Longe de endossar o pânico, a autora desafia o senso comum e as políticas tradicionais de controle de pragas ao demonstrar que o uso indiscriminado e doméstico de venenos é ecologicamente desastroso e ineficaz a longo prazo. A proposta central da obra, sustentada por décadas de evidências, defende o controle biológico residencial: a premissa de que um ambiente ecologicamente equilibrado é substancialmente mais seguro do que um espaço saturado de pesticidas.

Nessa perspectiva, a intervenção química é substituída por mudanças de comportamento, com foco em higiene, eliminação de esconderijos e modificações estruturais no ambiente. O ensaio propõe uma aliança tática com predadores urbanos frequentemente exterminados pelos moradores, como lagartixas e aracnídeos inofensivos (a exemplo da aranha-treme-treme e da aranha-vermelha). A tese demonstra com clareza científica que a preservação desses aliados naturais é a estratégia mais eficaz para mitigar a crise crescente de acidentes com animais peçonhentos no Brasil.

"Precisamos substituir a aversão pela natureza pelo respeito e pelo conhecimento embasado. A coexistência ética não significa ignorar o risco, mas compreender a fundo a biologia desse animal para prevenir acidentes de forma inteligente - com educação ambiental e responsabilidade compartilhada", revela Fischer.

Com uma linguagem fluida e acessível, a obra transita entre o rigor da biologia, as reflexões da bioética e a trajetória pessoal da autora, cujas pesquisas tiveram início em 1993. O livro não minimiza o risco real representado pela aranha-marrom; em vez disso, convoca o leitor a substituir a cultura do extermínio cego por uma coexistência ética e sustentável. Destinado a cientistas, profissionais da saúde, educadores, comunicadores e cidadãos engajados, "Aranha-marrom: 30 anos de estudos biológicos, epidemiológicos e sociais" pretende transformar a maneira como a sociedade lida com um de seus mais famosos e temidos vizinhos urbanos.

Sobre a autora

Marta Luciane Fischer é bióloga, arte-educadora, mestre e doutora em Zoologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), pós-doutora em Ecologia Química. Atualmente, é docente do curso de Ciências Biológicas e do Programa de Pós-Graduação em Bioética da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e Líder do grupo de pesquisa em Bioética Ambiental. Dedica-se ao estudo da aranha-marrom desde 1993, tornando-se uma das maiores autoridades brasileiras na intersecção entre zoologia, bioética e a complexa relação humano-animal no ambiente urbano.

Sobre a PUCPRESS 

A PUCPRESS, editora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), é referência no mercado editorial brasileiro, com mais de 40 anos de história e um catálogo diversificado de títulos acadêmicos e científicos em áreas como Filosofia, Educação, Direitos Humanos, Inovação e Tecnologia, Bioética, Cidades, Saúde e Biotecnologia, Energia, Tecnologia da Informação e Comunicação. Alinhada aos valores do Grupo Marista e às áreas estratégicas da PUCPR, a editora busca disseminar conhecimento de qualidade, promover o avanço da ciência e impactar positivamente a sociedade. Com publicações que abrangem desde livros impressos a e-books e audiobooks, a PUCPRESS também colabora com iniciativas globais, como o SDG Publishers Compact da ONU, reafirmando seu compromisso com a educação, inovação e sustentabilidade. Outras informações: www.pucpress.com. br 


Anile Comunicação | Fotos: Divulgação

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