Receita Federal mexe em regra de tributação de VGBL para alterar planejamento sucessório de grandes fortunas

No território reservado das grandes fortunas, uma mudança que reverbera além dos números

No círculo reservado das grandes fortunas — onde decisões financeiras são, antes de tudo, decisões sobre continuidade, identidade e visão — um movimento recente da Receita Federal reacendeu um debate que ultrapassa a técnica tributária. Ele toca no que pode significar preservar um legado.

Há um mês a Receita Federal publicou a Solução de Consulta nº 28/2026 para afirmar que os rendimentos acumulados em planos VGBL devem ser tributados pelo Imposto de Renda quando transferidos aos herdeiros, mantendo isenção apenas sobre o valor originalmente aportado. Para famílias que estruturam seu patrimônio, a mudança não é apenas contábil: é estratégica.

A posição contrasta com decisões de tribunais superiores, que vêm reconhecendo o caráter indenizatório do valor total recebido pelos beneficiários — o que afastaria a incidência de IRPF. Para essas cortes, o VGBL é mais do que um produto financeiro: é um instrumento de proteção familiar, alinhado à lógica de preservação multigeracional.

“O que está em jogo não é apenas a tributação de um produto, mas a coerência jurídica de um instrumento amplamente utilizado para garantir liquidez e estabilidade às famílias no momento mais sensível da sucessão,” afirma o tributarista Felipe Azevedo Maia, advogado e sócio fundador do AZM Advogados Associados, escritório que atua com planejamento patrimonial de alta renda.

No centro da disputa está a natureza jurídica do VGBL. A Receita Federal classifica-o como seguro de vida com cobertura por sobrevivência, limitando a isenção à parcela vinculada ao risco. Já parte da jurisprudência o interpreta como um mecanismo híbrido, exatamente como o público de alta renda o utiliza, como peça-chave na coreografia da sucessão. “A interpretação restritiva da Receita reduz a eficiência de estruturas sucessórias sofisticadas, especialmente aquelas desenhadas para atravessar décadas,” explica Azevedo Maia.

“Para famílias com patrimônio relevante, a diferença entre tributar ou não os rendimentos pode significar impacto real na liquidez e na fluidez da transmissão”, afirma. Para famílias que administram holdings, coleções raras, imóveis icônicos e investimentos globais, o impacto é direto. Em estruturas cuidadosamente desenhadas para resistir ao tempo, a tributação dos rendimentos pode representar erosão silenciosa de valores significativos.

Nos bastidores mais discretos do wealth management, multifamily offices e boutiques patrimoniais já revisitam portfólios e reavaliam estratégias. O movimento revela uma tendência clara: a sofisticação jurídica e fiscal tornou-se tão essencial quanto a curadoria de arte, a diversificação internacional ou a seleção de ativos alternativos.

“O planejamento sucessório de alto padrão exige estabilidade normativa. Quando há incerteza, o risco não é apenas financeiro — é estratégico,” conclui o especialista.


ELA Comunica | Fotos: Priscila Jacob, Freepik (capa)

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