Levantamento mostra que companhias já concentram 97,3% do volume de stablecoins em uma das principais plataformas brasileiras; movimento acompanha liderança do país na adoção global de criptoativos
O mercado brasileiro de criptoativos começa a mostrar uma mudança importante de perfil. Se a primeira fase de expansão do setor foi impulsionada principalmente pelo investimento em bitcoin e pela busca por valorização, o crescimento mais recente passa também pelo uso da blockchain como infraestrutura financeira para empresas.
Dados divulgados nesta semana pela Chainalysis, colocaram o Brasil na liderança mundial em adoção de criptoativos. O país movimentou US$ 252,5 bilhões nos 12 meses encerrados em junho de 2026, o equivalente a 2,7% dos US$ 9,4 trilhões registrados globalmente no período. O estudo destaca, entre os vetores desse avanço, o uso empresarial de stablecoins para liquidez e transferências internacionais.
O levantamento da Brasil Bitcoin ajuda a mostrar como essa transformação aparece na prática. Nos últimos 12 meses, as empresas responderam por 97,3% do volume financeiro movimentado em stablecoins na plataforma, somando R$ 27,7 bilhões. A concentração ocorre apesar de as pessoas físicas representarem 83% dos clientes que negociam esses ativos.
A diferença entre número de usuários e dinheiro movimentado indica que as stablecoins estão ganhando uma função distinta daquela que marcou a popularização inicial das criptomoedas. Para as empresas, esses ativos, geralmente vinculados a moedas como o dólar, vêm sendo utilizados em operações como pagamentos internacionais, movimentação de recursos e gestão de exposição cambial.
A mudança também aparece quando se observa a evolução histórica das negociações. Em 2020, o bitcoin respondia por 99,9% do volume negociado na Brasil Bitcoin quando comparado às stablecoins. A relação começou a se inverter entre 2023 e 2024. Hoje, as stablecoins representam 84% de todo o volume financeiro negociado na plataforma, ante 59% em 2025.
Considerando apenas a comparação entre bitcoin e stablecoins, a participação destas últimas chega a 97,7% do volume financeiro. No primeiro semestre de 2026, foram realizadas 72.096 operações com stablecoins, ante 39.448 operações com bitcoin. No mesmo período, a plataforma movimentou R$ 22 bilhões, superando todo o volume registrado no ano anterior.
Segundo Jorge de Almeida, CEO da Brasil Bitcoin, os números refletem uma mudança na finalidade de uso da própria tecnologia. “Esse crescimento não significa uma substituição do bitcoin. Pelo contrário: ele continua sendo uma importante porta de entrada para novos investidores. O que mudou foi a utilização da blockchain. As stablecoins passaram a ser usadas por empresas para resolver problemas concretos, como pagamentos internacionais, proteção cambial e movimentação de recursos, mostrando que os ativos digitais passaram a fazer parte da infraestrutura financeira”, explica.
A tendência observada na plataforma encontra paralelo nos dados da Receita Federal. Em 2025, foram movimentados R$ 506 bilhões em criptoativos no Brasil, dos quais 80,2% estavam relacionados a stablecoins. Em 2019, esses ativos representavam apenas 3,5% do volume. Ou seja, em poucos anos, ativos digitais vinculados a moedas tradicionais deixaram uma posição residual para assumir a maior parcela das transações declaradas no país.
O relatório mais recente da Chainalysis aponta na mesma direção. Além da liderança brasileira no índice de adoção, o número de carteiras no país com pelo menos US$ 10 mil em stablecoins cresceu 347% desde julho de 2024. A companhia também destaca o uso desses ativos por empresas brasileiras em operações de liquidez e transferências internacionais.
Para Almeida, a combinação desses movimentos mostra que o crescimento do mercado cripto passou a ter duas frentes que convivem: o investimento em ativos digitais e a utilização da infraestrutura blockchain para operações financeiras. “O bitcoin continua tendo uma função muito relevante como ativo e como porta de entrada para esse mercado. O que estamos vendo agora é o surgimento de uma camada adicional. Uma empresa que utiliza uma stablecoin para liquidar uma operação internacional ou movimentar recursos não está necessariamente fazendo uma aposta sobre a valorização de uma criptomoeda. Ela está utilizando a blockchain como infraestrutura financeira”, afirma.
A transformação não ocorre apenas no Brasil. Levantamento da Artemis em parceria com a Stablecon mostrou que os pagamentos B2B realizados com stablecoins cresceram mais de 730% em 2025, alcançando aproximadamente US$ 390 bilhões em volume anualizado. Cerca de 60% do volume analisado correspondia a transações entre empresas.
Exchanges também mudam de perfil
A entrada das empresas nesse mercado começa a alterar também o papel das plataformas de criptoativos. Além da compra e venda de moedas digitais, serviços como pagamentos, remessas internacionais, custódia institucional, mesas OTC e integrações por API passaram a compor a infraestrutura oferecida pelo setor.
“As exchanges deixaram de ser apenas ambientes para compra e venda de criptomoedas. Hoje oferecem soluções de pagamentos, remessas internacionais, custódia institucional, integração via API e produtos voltados às empresas. A blockchain deixou de ser apenas uma tecnologia para investimento e passou a sustentar uma nova geração de serviços financeiros”, afirma Almeida.
A própria Chainalysis identificou um fortalecimento das plataformas locais. A participação das exchanges sediadas no Brasil nos fluxos domésticos passou de 1,5% para 12,5%, movimento diferente daquele observado em outros mercados latino-americanos. O relatório relaciona esse avanço, entre outros fatores, ao desenvolvimento da infraestrutura local e ao ambiente regulatório.
Para Almeida, a entrada de empresas e instituições também eleva as exigências para quem atua nesse mercado. “O usuário corporativo exige segurança, transparência, governança e capacidade de integração com seus processos. Quanto mais as stablecoins entram na rotina financeira das empresas, menos esse mercado pode ser tratado apenas como negociação de criptomoedas. Estamos falando cada vez mais de uma infraestrutura financeira baseada em blockchain”, conclui.
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