A violência contra a mulher nem sempre se apresenta de forma explícita. Em grande parte das situações, manifesta-se de maneira silenciosa, nas entrelinhas da história clínica, no comportamento, no corpo e na fala interrompida. Para a Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS) e a Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Rio Grande do Sul (SOGIRGS), o consultório médico pode ser um dos primeiros espaços de identificação e acolhimento dessas situações, especialmente na prática ginecológica, onde a mulher se encontra em um contexto de maior intimidade, vulnerabilidade e sensibilidade clínica.
Durante a consulta, sinais físicos podem levantar suspeita de agressão, como hematomas em diferentes estágios de cicatrização, equimoses em face, pescoço, mamas, abdome e parte interna de coxas, lesões com padrão sugestivo de violência e fraturas recorrentes. No exame ginecológico, podem surgir lacerações vaginais ou anais sem relato coerente, infecções sexualmente transmissíveis de repetição, dor pélvica crônica sem causa orgânica evidente ou gravidez não planejada associada a possível relação não consentida.
Sintomas inespecíficos também merecem atenção, como cefaleia persistente, distúrbios do sono, alterações gastrointestinais funcionais, quadros compatíveis com fibromialgia, além de sinais comportamentais como ansiedade excessiva, hipervigilância, dificuldade em manter contato visual, respostas mediadas pelo acompanhante, insistência do parceiro em permanecer durante a consulta ou faltas frequentes aos atendimentos.
A abordagem médica deve ser estruturada, segura e acolhedora, com garantia de privacidade. O tema não deve ser tratado na presença do parceiro ou de terceiros. Toda mulher tem direito a atendimento em ambiente privado, e cabe ao médico, no exercício de sua autonomia profissional, definir a dinâmica da consulta, podendo determinar que parte do atendimento ocorra exclusivamente com a paciente, como prática assistencial rotineira. Perguntas diretas, formuladas com empatia e objetividade não aumentam o risco para a mulher e frequentemente funcionam como instrumento de libertação. É essencial validar o relato, agradecer a confiança e evitar qualquer forma de julgamento ou culpabilização.
Uma vez identificada a agressão ou o risco iminente, é fundamental avaliar o grau de comprometimento da segurança da paciente, investigando a existência de ameaça de morte ou escalada progressiva da violência. A partir dessa análise, devem ser adotadas as medidas legais e assistenciais cabíveis, incluindo a notificação compulsória de violência interpessoal no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), além do encaminhamento à rede de apoio e proteção.
AMRIGS e SOGIRGS destacam que o enfrentamento da violência de gênero não pode ser responsabilidade isolada do profissional. Também é necessária uma resposta institucional, com protocolos padronizados de triagem, capacitação das equipes multiprofissionais, fluxos claros para notificação obrigatória, articulação com a rede jurídica e social, e oferta de suporte psicológico aos trabalhadores da saúde quando necessário.
As entidades médicas defendem a inclusão permanente do debate sobre agressões motivadas por desigualdade entre homens e mulheres na formação em Medicina, a atualização de diretrizes clínicas, a produção de materiais educativos e a defesa de políticas públicas baseadas em evidências. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) têm papel essencial na orientação ética e técnica sobre notificação, sigilo profissional e dever legal.
O feminicídio não começa com o ato final de violência. Ele começa com o controle. Com o isolamento. Com o medo. Reconhecer precocemente esses sinais é uma responsabilidade ética, técnica e social da Medicina.
Dr. Gerson Junqueira Jr. | Presidente da AMRIGS
Dra. Rafaella Petracco | Diretora da SOGIRGS
Onde buscar atendimento
Em Porto Alegre, hospitais referência no atendimento a mulheres vítimas de violência (física e sexual) incluem o Hospital Fêmina (referência principal para mulheres/adolescentes acima de 14 anos, 24h), o Hospital Materno Infantil Presidente Vargas (atendimento de urgência) e o Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Hospital Fêmina (GHC): Avenida Mostardeiro, 17 - Rio Branco (Atendimento 24h especializado).
Hospital Materno Infantil Presidente Vargas (HMIPV): Avenida Independência, 661 - Centro Histórico.
Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA): Rua Ramiro Barcelos, 2350 - Santa Cecília.
Hospital Nossa Senhora da Conceição (GHC): Av. Francisco Trein, 596 - Cristo Redentor (atende mulheres e adolescentes).
Hospital Restinga Extremo-Sul: Conta com a "Sala Lilás" para atendimento especializado à violência doméstica.
Canais para denúncias
VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
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🚨 Emergência
190 – Brigada Militar
📞 Denúncias
181 – Polícia Civil
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0800 541 0803
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