Inovação, dados e inteligência artificial redesenham o cuidado em saúde

  • 9 de fevereiro de 2026
  • Sol FM

Evento promovido pela Associação Médica do Rio Grande do Sul, em parceria com o Instituto Caldeira, debateu tecnologia, prática médica e os caminhos que hospitais e profissionais precisam trilhar para o futuro

A integração entre inovação, tecnologia e inteligência artificial aplicada à prática assistencial na Medicina foi o centro do encontro promovido pela Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS), em parceria com o Instituto Caldeira, realizado ao longo do sábado, 7 de fevereiro. O evento reuniu médicos, gestores e especialistas para debater os desafios e as oportunidades que vêm redesenhando o cuidado em saúde, especialmente no ambiente hospitalar.
Na abertura, o coordenador de Novos Negócios do Instituto Caldeira, Thomás Azeredo, destacou a relevância da parceria com a AMRIGS para ampliar o debate qualificado.
Para 2026, o Caldeira projeta a ampliação de suas frentes de atuação, com foco estratégico no setor da saúde, consolidando esse segmento como uma das principais verticais a serem fomentadas no próximo ciclo”, anunciou.
Para o coordenador do Núcleo de Inovação e Tecnologia da AMRIGS, Dr. Otávio Cunha, o encontro cumpre um papel fundamental de escuta ativa e troca de experiências, reunindo médicos de diferentes regiões e realidades.
A AMRIGS se posiciona como uma entidade que reconhece a tecnologia como fundamental para o dia a dia da Medicina, desde que sua incorporação ocorra de forma sustentável, com embasamento técnico-científico sólido e benefício real para o paciente”, declarou.
A transformação acelerada da prática médica diante do avanço da inteligência artificial foi um dos pontos principais do debate, conforme destacou o presidente da AMRIGS, Dr. Gerson Junqueira Jr., ao abordar a mudança de paradigmas na profissão.
“Vivemos uma quebra muito clara entre a Medicina de antigamente e a atual. Médicos e demais profissionais de saúde não apenas vão incorporar a inteligência artificial com intensidade, como tendem a se apaixonar por essa ferramenta em pouco tempo. Isso impacta a essência da Medicina, o atendimento, a formação acadêmica e a Residência Médica. Precisamos refletir sobre como ensinar anamnese, técnicas cirúrgicas e manejos clínicos em um contexto no qual a IA passa a estar integrada a todo esse processo”, afirmou.
O vice-presidente da Associação Médica do Rio Grande do Sul, Dr. Paulo Morassutti, chamou atenção para dados que já indicam mudanças geracionais relevantes, junto à discussão sobre os impactos do uso excessivo da tecnologia no desenvolvimento cognitivo. 
“O acesso cada vez mais precoce e intenso ao celular nos preocupa muito do ponto de vista intelectual. Já observamos dados que mostram que uma geração anterior apresenta melhor função mental do que a posterior, algo absolutamente inédito ao longo da evolução humana”, alertou.
Ao abordar os desafios clínicos e assistenciais, o diretor Científico e Cultural da AMRIGS, Dr. Guilherme Napp, evidenciou o papel do digital na reabilitação e reinserção funcional de pacientes com doenças crônicas.
“A retomada da mobilidade em pacientes com essas condições representa um momento decisivo no tratamento, mas também um período de grande vulnerabilidade. Pesquisas desenvolvidas na Califórnia mostram que o uso de sensores de pressão permite monitorar a caminhada, identificar áreas de risco para ulceração e chamar o paciente de forma precoce para avaliação, reduzindo sobrecarga e evitando lesões”, explicou.
 
Tendências e futuro
Abrindo o primeiro bloco, “Tendências e o Futuro”, Dr. Otávio Cunha apresentou a palestra “Visão dos médicos – O que os hospitais esperam do corpo clínico para 2026?”, trazendo reflexões e manifestações sobre o papel do médico em um cenário cada vez mais orientado por dados, eficiência e integração multiprofissional. 
Os principais desafios assistenciais listados são a fragmentação da informação clínica e a baixa interoperabilidade entre sistemas, o que resulta na multiplicidade de prontuários e plataformas, comprometendo a segurança do paciente, a continuidade do cuidado e a tomada de decisão.
“Existe uma sobrecarga operacional significativa. O excesso de tarefas administrativas impostas ao corpo clínico reduz o tempo destinado à assistência direta e amplia o risco de desgaste profissional e burnout”, explicou.
Na sequência, a palestra “IA na Saúde: revolução ou hype?” provocou reflexões ao abordar limites, riscos e oportunidades do uso da inteligência artificial. O médico e pesquisador Roger Daglius Dias destacou que discutir inovação passa, necessariamente, por compreender a transformação do papel dos profissionais de saúde.
“Não é possível falar de IA e tecnologia sem entender o impacto direto na nossa atuação. O papel do médico mudou muito ao longo do tempo e está mudando cada vez mais rápido. Antes, a formação era conduzida basicamente à assistência, pesquisa ou gestão. Hoje, esse cenário se ampliou de forma significativa, com múltiplas possibilidades, e é exatamente esse novo contexto que precisamos discutir”, pontuou.
IA na Prática
No segundo bloco, a exposição “Como vencer na saúde com tecnologia, dados e IA” apresentou estratégias para transformar informação em tomada de decisão qualificada, com exemplos de integração entre dados assistenciais e administrativos. O engenheiro mecânico Marcelo Saraiva destacou que a transformação digital na saúde e nos negócios depende, necessariamente, da qualidade de conteúdo, alertando que investimentos em automação sem uma base sólida de dados tendem a ampliar erros e comprometer resultados.
“Sem dados bem estruturados, não adianta automatizar. Você apenas automatiza o erro e não gera resultado. Hoje, a eficiência média no Brasil em ativos parados gira em torno de 40%, o que significa que ainda temos cerca de 60% de potencial que não está sendo trabalhado”, disse.
Já a palestra “Aplicações robustas de IA: o ChatGPT é suficiente?”, ministrada pelo Dr. Robson Verly, especialista em IA Médica, abordou uma análise comparativa entre diferentes soluções de inteligência artificial, envolvendo limitações, possibilidades de uso e critérios para adoção de ferramentas mais adequadas às demandas do setor da saúde.
Na etapa final da programação, Dr. Hugo Mallmann apresentou um case de priorização clínica com dados reais do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), exemplificando de forma concreta a aplicação da IA na prática hospitalar, com ganhos em eficiência, segurança e organização do atendimento. O relato revelou como o uso responsável de dados pode impactar diretamente no cuidado com o paciente e a qualificação dos fluxos assistenciais.
A discussão não passa apenas pelo uso das ferramentas, mas pelo protagonismo do corpo clínico na definição de prioridades, fluxos e critérios de decisão, especialmente em áreas sensíveis como o diagnóstico por imagem. Se a gente não participar, isso se perde. E, mais do que isso, o médico fica fora do processo”, contextualizou.
O evento proporcionou momentos para perguntas e discussões. Um dos aprendizados centrais foi de que a inovação, dados e inteligência artificial só geram valor quando incorporados à prática médica com embasamento técnico, participação ativa dos profissionais e foco permanente na segurança e na atenção com o paciente.
 
Sobre a AMRIGS

A Associação Médica do Rio Grande do Sul é uma organização sem fins lucrativos voltada para a atualização do conhecimento técnico-científico e para a realização de debates científico-culturais relacionados à saúde, à Medicina e à vida profissional. Desde o momento de sua fundação em 1951, a AMRIGS integra a vida do médico em todas as etapas da profissão, tendo como objetivos:

PlayPress | AMRIGS - Associação Médica do Rio Grande do Sul | Redação e fotos: Marcelo Matusiak

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