Tendências e futuro
Abrindo o primeiro bloco, “Tendências e o Futuro”, Dr. Otávio Cunha apresentou a palestra “Visão dos médicos – O que os hospitais esperam do corpo clínico para 2026?”, trazendo reflexões e manifestações sobre o papel do médico em um cenário cada vez mais orientado por dados, eficiência e integração multiprofissional.
Os principais desafios assistenciais listados são a fragmentação da informação clínica e a baixa interoperabilidade entre sistemas, o que resulta na multiplicidade de prontuários e plataformas, comprometendo a segurança do paciente, a continuidade do cuidado e a tomada de decisão.
“Existe uma sobrecarga operacional significativa. O excesso de tarefas administrativas impostas ao corpo clínico reduz o tempo destinado à assistência direta e amplia o risco de desgaste profissional e burnout”, explicou.
Na sequência, a palestra “IA na Saúde: revolução ou hype?” provocou reflexões ao abordar limites, riscos e oportunidades do uso da inteligência artificial. O médico e pesquisador Roger Daglius Dias destacou que discutir inovação passa, necessariamente, por compreender a transformação do papel dos profissionais de saúde.
“Não é possível falar de IA e tecnologia sem entender o impacto direto na nossa atuação. O papel do médico mudou muito ao longo do tempo e está mudando cada vez mais rápido. Antes, a formação era conduzida basicamente à assistência, pesquisa ou gestão. Hoje, esse cenário se ampliou de forma significativa, com múltiplas possibilidades, e é exatamente esse novo contexto que precisamos discutir”, pontuou.
IA na Prática
No segundo bloco, a exposição “Como vencer na saúde com tecnologia, dados e IA” apresentou estratégias para transformar informação em tomada de decisão qualificada, com exemplos de integração entre dados assistenciais e administrativos. O engenheiro mecânico Marcelo Saraiva destacou que a transformação digital na saúde e nos negócios depende, necessariamente, da qualidade de conteúdo, alertando que investimentos em automação sem uma base sólida de dados tendem a ampliar erros e comprometer resultados.
“Sem dados bem estruturados, não adianta automatizar. Você apenas automatiza o erro e não gera resultado. Hoje, a eficiência média no Brasil em ativos parados gira em torno de 40%, o que significa que ainda temos cerca de 60% de potencial que não está sendo trabalhado”, disse.
Já a palestra “Aplicações robustas de IA: o ChatGPT é suficiente?”, ministrada pelo Dr. Robson Verly, especialista em IA Médica, abordou uma análise comparativa entre diferentes soluções de inteligência artificial, envolvendo limitações, possibilidades de uso e critérios para adoção de ferramentas mais adequadas às demandas do setor da saúde.
Na etapa final da programação, Dr. Hugo Mallmann apresentou um case de priorização clínica com dados reais do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), exemplificando de forma concreta a aplicação da IA na prática hospitalar, com ganhos em eficiência, segurança e organização do atendimento. O relato revelou como o uso responsável de dados pode impactar diretamente no cuidado com o paciente e a qualificação dos fluxos assistenciais.
“A discussão não passa apenas pelo uso das ferramentas, mas pelo protagonismo do corpo clínico na definição de prioridades, fluxos e critérios de decisão, especialmente em áreas sensíveis como o diagnóstico por imagem. Se a gente não participar, isso se perde. E, mais do que isso, o médico fica fora do processo”, contextualizou.
O evento proporcionou momentos para perguntas e discussões. Um dos aprendizados centrais foi de que a inovação, dados e inteligência artificial só geram valor quando incorporados à prática médica com embasamento técnico, participação ativa dos profissionais e foco permanente na segurança e na atenção com o paciente.