Com 3,31 milhões de cotas vendidas até julho, modalidade cresce no país, mas especialista alerta que expectativa de contemplação rápida pode transformar planejamento em frustração
O consórcio ganhou espaço no planejamento financeiro dos brasileiros em 2026. Em julho, o sistema alcançou o recorde de 13,41 milhões de participantes ativos, alta de 11,4% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Entre janeiro e julho, foram comercializadas 3,31 milhões de cotas, crescimento de 14,9%, que movimentaram R$ 331,6 bilhões em créditos, segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC).
O avanço é ainda mais expressivo no mercado imobiliário. Foram 979,67 mil cotas vendidas nos sete primeiros meses do ano, 40,8% acima do mesmo período de 2025. O segmento chegou a 3,32 milhões de participantes ativos e movimentou R$ 195,11 bilhões em créditos comercializados.
Por trás dos números estão consumidores que utilizam a modalidade de maneiras diferentes. O empresário Marco Benedett é um deles. Atualmente, ele mantém cerca de dez cartas de crédito imobiliário de R$ 100 mil cada. Diferentemente de quem entra em um grupo com a necessidade imediata de comprar uma casa, ele afirma utilizar as cartas como parte de uma estratégia de formação de patrimônio.
“Eu faço consórcio para ganhar dinheiro. Não faço para comprar imóvel ou carro”, conta. Segundo Marco, nos últimos dois anos, três cartas já foram contempladas. A estratégia, porém, envolve uma variável que ele próprio reconhece não controlar: o tempo. “Corre o risco de você demorar meses, até anos, para conseguir ser contemplado”, afirma.
É justamente nesse ponto que, segundo João Vitor Mazzarino Pontes, consultor especializado em planejamento financeiro, a modalidade pode deixar de ser planejamento e virar fonte de frustração.
“O consórcio precisa ser adequado ao objetivo e ao prazo daquela pessoa. Se alguém precisa do recurso em seis meses e não possui condições para trabalhar com um lance competitivo, por exemplo, não faz sentido entrar contando com uma contemplação rápida”, explica.
João atua no mercado de seguros desde 2015 e, dois anos depois, fundou sua própria corretora. Sua experiência inclui seguros, consórcios e planejamento financeiro.
Crescimento não elimina o risco da expectativa errada
A contemplação de uma carta ocorre pelas regras previstas em cada grupo, como sorteio ou lance. Por isso, não existe garantia de que o participante terá acesso ao crédito no momento em que deseja.
João aponta como problema a venda baseada em promessa de contemplação. Segundo ele, estatísticas anteriores dos grupos podem ajudar na análise, mas não permitem assegurar quando determinada carta será contemplada. Para ele, é aí que planejamento financeiro e consórcio precisam caminhar juntos.
“Se a pessoa entra porque precisa obrigatoriamente ser contemplada em determinado prazo, pode estar escolhendo a ferramenta errada. O primeiro passo é entender o objetivo, quanto ela consegue comprometer da renda e por quanto tempo consegue esperar”, afirma.
A diferença ajuda a explicar por que duas pessoas podem ter experiências completamente opostas com o mesmo produto. Para alguém que precisa comprar um imóvel imediatamente, a imprevisibilidade da contemplação pode ser incompatível com o objetivo. Para quem possui horizonte de longo prazo, a análise é diferente.
O caso de Marco ilustra essa segunda situação. Ao distribuir o valor que pretende movimentar entre diferentes cartas, ele busca aumentar sua exposição aos sorteios sem concentrar toda a estratégia em uma única cota. Ainda assim, reconhece que não existe garantia de quando ocorrerá a contemplação.
Consórcio de imóveis é o que mais cresce em 2026
Os dados ajudam a mostrar por que a discussão ganhou relevância. Entre os seis segmentos acompanhados pela ABAC, o imobiliário apresentou o maior crescimento nas vendas acumuladas até julho: 40,8%. No mesmo período, as vendas de consórcios de motocicletas avançaram 8%, as de veículos leves, 6,1%, e as de serviços, 10,3%.
Para João, a expansão exige também mais clareza sobre o funcionamento da modalidade. “Consórcio não deveria começar pela pergunta ‘quando vou ser contemplado?’. Deveria começar pelo objetivo financeiro. Quando existe necessidade imediata, é preciso avaliar outras alternativas. Quando existe prazo, capacidade de pagamento e planejamento, a conversa muda completamente”, explica.
A recomendação é especialmente importante diante do tamanho que o sistema alcançou. Somente nos sete primeiros meses de 2026, mais de um milhão de participantes foram contemplados, enquanto o número total de consorciados ativos ultrapassou 13 milhões.
O crescimento mostra que o consórcio deixou de ser uma alternativa restrita à compra tradicional de carros ou imóveis. Mas o princípio continua o mesmo: a modalidade pode fazer parte de uma estratégia financeira, desde que o consumidor saiba que planejamento e pressa raramente combinam.
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