Segundo executivo Paulo Brenha, alívio no bolso do consumidor esconde desafios para empresas brasileiras, que enfrentarão concorrência ainda mais intensa
O anúncio do fim da chamada “taxa das blusinhas”, feito pelo Governo Federal nesta terça-feira (12), traz alívio imediato para o consumidor brasileiro, mas abre um novo capítulo de pressão competitiva para o varejo nacional.
A medida, que reduz a tributação sobre compras internacionais de baixo valor, tende a baratear produtos importados, especialmente em categorias como moda, acessórios e utilidades, e reacender a disputa por preço entre empresas locais e plataformas estrangeiras.
No curto prazo, o impacto percebido é positivo. Depois de um período marcado por juros elevados, renda pressionada e alto nível de endividamento das famílias, qualquer redução de custo é rapidamente incorporada ao comportamento de consumo. “Existe uma sensação imediata de ganho financeiro, principalmente em itens de compra recorrente e por impulso”, explica o especialista em varejo e comportamento do consumidor, Paulo Brenha.
No entanto, por trás desse alívio momentâneo, o cenário se mostra mais complexo. O varejo brasileiro já opera sob forte pressão estrutural, incluindo carga tributária elevada, custos logísticos e trabalhistas altos, crédito caro e desafios operacionais. Nesse contexto, a redução de barreiras para produtos importados aumenta a desigualdade competitiva.

“Enquanto o varejo nacional lida com uma estrutura pesada e custos elevados, muitas plataformas internacionais operam com modelos mais enxutos e agressivos em preço. Isso inevitavelmente amplia a pressão sobre empresas locais”, afirma Brenha, autor de "Varejo com propósito e resultado".
Concorrência desigual e impacto nas margens
O impacto deve ser mais sentido em segmentos como moda popular, acessórios e utilidades, categorias fortemente influenciadas por preço e comportamento de impulso. Empresas que já vinham enfrentando deterioração de margem podem ver sua rentabilidade ainda mais pressionada.
Apesar da leitura mais cautelosa para o setor, o movimento também pode acelerar uma transformação em curso. Segundo o especialista, a disputa tende a deixar de ser centrada apenas em preço e migrar para outros atributos de valor.
“O consumidor não compra só o produto. Ele compra prazo, confiança, experiência, facilidade de troca e relacionamento com a marca. Isso começa a pesar mais quando a competição por preço se intensifica”, diz Brenha.
Outro ponto importante é que o fim da taxação não significa ausência total de impostos. A isenção anunciada se aplica ao imposto federal para compras de até 50 dólares no âmbito do programa Remessa Conforme, mas o ICMS segue incidindo em diferentes estados. “Existe um alívio, mas não é um cenário de produtos sem tributação”, ressalta.
Impacto no pequeno varejo e na economia local
Além do impacto direto nas vendas, a medida também pode gerar efeitos indiretos na indústria nacional e no pequeno varejo. Comerciantes locais, especialmente os de menor porte, já enfrentam queda de fluxo nas lojas físicas, avanço do digital e mudanças no comportamento de consumo. A competição com produtos importados mais baratos tende a intensificar esse cenário.
Esse movimento ocorre em um momento em que o consumo já está fragilizado por fatores como endividamento crescente e novas disputas pela renda das famílias, incluindo o avanço das apostas online. Para Brenha, o efeito combinado dessas variáveis pode aprofundar os desafios do setor nos próximos meses.
Mais do que uma mudança tributária, o fim da “taxa das blusinhas” sinaliza uma transformação estrutural no varejo brasileiro. O consumidor se tornou mais global, mais digital e mais sensível à percepção de valor, um comportamento que exige respostas mais sofisticadas das empresas.
“Eficiência operacional, estratégia comercial e experiência do cliente deixam de ser diferenciais e passam a ser condição de sobrevivência”, afirma o especialista.
Nesse novo cenário, o varejo nacional tende a enfrentar um período de adaptação, no qual será necessário rever posicionamento, reforçar a proposta de valor e melhorar a execução para competir em um ambiente cada vez mais aberto e dinâmico.
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