A Copa do Mundo de futebol mobiliza milhões de pessoas, desperta paixões, aproxima diferentes gerações do esporte e cria uma oportunidade importante para incentivar hábitos mais saudáveis. A Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS) e a Sociedade Gaúcha de Medicina do Exercício e do Esporte (SOGAMEDE) chamam atenção para a importância de aproveitar esse período de maior interesse pela modalidade como estímulo positivo a uma rotina mais ativa, responsável e orientada.
Grandes eventos esportivos têm forte poder de inspiração. Crianças, jovens, adultos e idosos passam a acompanhar atletas, seleções e histórias de superação que podem servir como ponto de partida para uma relação mais dinâmica com o corpo. O futebol, assim como outros segmentos, contribui para combater o sedentarismo, melhorar o condicionamento, favorecer a saúde cardiovascular, auxiliar no controle do peso, promover bem-estar emocional e estimular a convivência social.
Esse entusiasmo, no entanto, precisa estar acompanhado de responsabilidade. Pessoas sedentárias ou que estão há muito tempo sem treinar não devem tentar compensar anos de inatividade em poucos dias. A retomada deve ser gradual, respeitando idade, condição clínica, histórico de saúde, limitações funcionais e sinais do próprio organismo. Em muitos casos, especialmente para pessoas acima de 35 anos ou com fatores de risco como hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo, histórico familiar de doenças cardíacas ou enfermidades crônicas conhecidas, a avaliação médica antes de iniciar ou intensificar os treinos é uma medida indispensável.
O retorno aos exercícios deve começar com baixa intensidade, progressão lenta de carga, períodos adequados de recuperação, boa hidratação, aquecimento, roupas confortáveis e calçados apropriados. Dor no peito, falta de ar desproporcional, tontura, palpitações, desmaios, mal-estar intenso ou desconforto persistente durante o esforço exigem interrupção imediata da atividade e orientação especializada.
No futebol, esporte de contato e marcado por aceleração, desaceleração, saltos, mudanças rápidas de direção e disputas físicas, alguns cuidados são ainda mais necessários. Entre os erros mais comuns estão jogar sem preparo compatível, ignorar dores, não realizar aquecimento, negligenciar o trabalho muscular e desconsiderar o descanso. As ocorrências mais frequentes envolvem musculatura posterior da coxa, adutores, tornozelos, joelhos, meniscos, tendões e ligamentos, incluindo lesões do ligamento cruzado anterior, que podem afastar o praticante por longos períodos.
Crianças e adolescentes devem ser estimulados a brincar, correr e experimentar práticas esportivas, sempre com respeito à sua faixa etária, ao desenvolvimento físico e ao prazer pela atividade. Adultos e idosos também se beneficiam amplamente do movimento, desde que a escolha do tipo de exercício e a intensidade estejam adequadas às suas condições clínicas e funcionais.
Um grande evento como a Copa do Mundo pode ser uma porta de entrada para uma vida mais ativa, mas o movimento não deve ser visto apenas como desempenho, competição ou resultado. Exercitar-se regularmente é uma das principais ferramentas de promoção da saúde, com benefícios para o coração, os músculos, as articulações, o controle metabólico, a saúde mental, a autonomia e a qualidade de vida a longo prazo.
O melhor exercício é aquele que se mantém na rotina, com satisfação, constância e cuidado. Que o espírito esportivo da Copa impulsione a população a sair do sedentarismo, adotar escolhas mais saudáveis e incorporar uma vida ativa muito além do período da competição.
Dr. Gerson Junqueira Jr. - Presidente da AMRIGS
Dr. Márcio Dornelles - Presidente da SOGAMEDE e diretor da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE)