Automação avança sobre atividades tradicionalmente executadas por profissionais juniores e abre discussão sobre como formar gestores quando parte do aprendizado inicial da carreira passa a ser feita por máquinas
A inteligência artificial começa a avançar justamente sobre algumas das tarefas que historicamente serviram como porta de entrada para profissionais no mercado corporativo. Pesquisas, análises preliminares, elaboração de relatórios, organização de informações, produção de apresentações e revisão de documentos já podem ser realizadas, em diferentes níveis, por ferramentas de IA. O ganho de produtividade é imediato, mas começa a criar uma questão menos óbvia para as empresas: se a tecnologia assumir boa parte do trabalho dos profissionais juniores, como serão formados os gestores e executivos do futuro?
A discussão ganha relevância à medida que companhias aceleram a adoção de inteligência artificial em áreas administrativas, financeiras, jurídicas, comerciais e de tecnologia. Em muitas delas, as primeiras tarefas automatizadas são justamente aquelas mais repetitivas e estruturadas, tradicionalmente destinadas a profissionais em início de carreira.
Para Felipe Maffezzolli, fundador da Hub XP e cofundador da Elegant, o risco está em confundir a eliminação de uma tarefa com a eliminação da etapa de aprendizado associada a ela.
“Quando um profissional entra em uma empresa, ele não aprende apenas porque alguém ensina. Aprende fazendo coisas mais simples, errando, revisando, observando como decisões são tomadas e acumulando repertório ao longo do tempo. Se a IA assumir toda essa camada inicial, podemos ganhar eficiência agora e criar um problema de formação de talentos mais adiante”, afirma.
Esse movimento já aparece em levantamentos internacionais sobre emprego e inteligência artificial. O AI Jobs Barometer 2026, da PwC, aponta que funções mais expostas à IA estão mudando mais rapidamente e exigindo novas competências. Em ocupações com maior possibilidade de automação, habilidades associadas a julgamento, criatividade e tomada de decisão ganham peso, enquanto tarefas operacionais passam a perder relevância.
A mudança cria um paradoxo para as empresas. Ao mesmo tempo em que a inteligência artificial reduz a necessidade de profissionais executando atividades básicas, as companhias continuam precisando formar pessoas capazes de assumir posições mais complexas no futuro.
“Não existe executivo sênior sem passado júnior”, diz Maffezzolli. “O problema é que boa parte da experiência que forma um bom gestor vem de atividades que hoje parecem facilmente automatizáveis. A empresa pode economizar uma posição de entrada, mas precisa pensar onde aquele profissional vai adquirir repertório para tomar decisões mais sofisticadas depois.”
O impacto pode ser particularmente relevante em setores tradicionalmente estruturados em pirâmides profissionais. Consultorias, bancos, escritórios de advocacia, empresas de tecnologia e áreas financeiras costumam contratar grandes grupos de profissionais em início de carreira e promover uma parcela deles ao longo dos anos. Se a base dessa pirâmide diminuir, a lógica de formação também precisa mudar.
No mercado financeiro, por exemplo, analistas juniores costumam passar anos construindo modelos, pesquisando empresas, preparando materiais e acompanhando profissionais mais experientes antes de assumir decisões de maior responsabilidade. Parte significativa desse trabalho já pode ser acelerada por inteligência artificial.
A consequência não precisa ser necessariamente uma redução drástica das contratações, mas uma mudança no perfil das vagas.
“A exigência para quem está começando tende a subir”, afirma Maffezzolli. “Se uma IA consegue fazer a pesquisa básica, organizar os dados e produzir uma primeira análise, o profissional júnior passa a precisar entrar sabendo interpretar, questionar e contextualizar. Só que essas são competências que tradicionalmente eram desenvolvidas ao longo da carreira.”
Essa transformação também começa a aparecer nos salários. Estudos recentes mostram que profissionais com competências em inteligência artificial recebem prêmios salariais relevantes em diferentes mercados, enquanto empresas aumentam a procura por trabalhadores capazes de combinar conhecimento técnico com julgamento e capacidade de negócio.
Para Maffezzolli, o risco é criar uma espécie de “compressão da carreira”, na qual empresas passam a exigir experiência de profissionais que ainda não tiveram oportunidade de acumulá-la.
“Podemos chegar a uma situação curiosa: a empresa elimina várias tarefas de entrada porque a IA faz melhor e mais rápido, mas depois reclama que não encontra profissionais preparados para posições intermediárias e de liderança. A discussão não é preservar trabalho ineficiente. É redesenhar a maneira como as pessoas aprendem.”
Nesse cenário, programas de trainee, mentorias, rotação entre áreas e projetos supervisionados podem ganhar nova importância. Em vez de formar profissionais pela repetição de tarefas operacionais, as empresas terão de criar experiências deliberadas de aprendizagem.
A mudança também altera a relação entre produtividade e contratação. Um analista equipado com inteligência artificial pode produzir mais do que vários profissionais fariam anteriormente. Para as companhias, isso reduz a pressão por ampliar equipes na mesma proporção do crescimento do negócio, mas aumenta a necessidade de planejamento de sucessão.
“Produtividade e formação de talentos precisam começar a ser discutidas juntas”, diz Maffezzolli. “Se você olha apenas para o trimestre, reduzir uma camada de trabalho pode parecer uma decisão óbvia. Mas empresas são construídas ao longo de décadas. Alguém precisa estar sendo preparado hoje para liderar essas organizações daqui a dez ou quinze anos.”
A tendência, segundo ele, é que a inteligência artificial não elimine necessariamente o início da carreira, mas mude radicalmente seu conteúdo.
“O profissional júnior do futuro provavelmente fará menos trabalho mecânico e será exposto mais cedo a problemas complexos. Isso pode ser muito positivo. Mas exige que a empresa assuma um papel mais ativo na formação. A tecnologia consegue eliminar tarefas. Ela não resolve sozinha como criar experiência”, conclui Maffezzolli.
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