Diagnóstico precoce do melanoma e inteligência artificial apontam novos caminhos para a Dermatologia

  • 19 de outubro de 2026
  • Sol FM

Especialistas reunidos em Porto Alegre discutem avanços no atendimento aos pacientes, tratamentos estéticos e riscos associados a procedimentos

O uso da inteligência artificial nos consultórios médicos e os avanços na identificação precoce do melanoma, um dos tipos mais agressivos de câncer da pele, estiveram entre os principais assuntos debatidos nesta sexta-feira (16/10), em Porto Alegre. As discussões integraram a programação da 33ª Jornada Sul-Brasileira de Dermatologia e da 51ª Jornada Gaúcha de Dermatologia. Os eventos são promovidos pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), em conjunto com suas regionais, entre elas a Sociedade Brasileira de Dermatologia – Secção do Rio Grande do Sul (SBD-RS). A programação reúne médicos dermatologistas, residentes e especialistas em formação para compartilhar conhecimentos sobre novas tecnologias, diagnóstico, tratamentos e segurança na prática clínica.

Diagnóstico precoce do câncer da pele

A identificação do melanoma em seus estágios iniciais recebeu atenção especial durante a programação. O presidente da SBD, Dr. Carlos Baptista Barcaui, abordou os sinais dermatoscópicos da doença, o tratamento cirúrgico e as indicações da biópsia do linfonodo sentinela. O procedimento permite investigar se células tumorais atingiram os primeiros gânglios linfáticos para os quais o câncer pode se disseminar, contribuindo para o estadiamento e a definição da conduta terapêutica.

“Lesões muito pequenas já podem apresentar características suspeitas. A avaliação individual com o dermatoscópio é rápida e permite reconhecer padrões importantes para o diagnóstico. Mesmo quando uma lesão parece benigna, é fundamental investigar qualquer suspeita de melanoma”, destacou.

Os desafios para diferenciar a doença de alterações benignas, como os nevos melanocíticos (pintas), foram discutidos pelo médico dermatologista Dr. Renato Marchiori Bakos. O especialista ressaltou a importância do acompanhamento digital para identificar mudanças nas lesões e evitar remoções desnecessárias.

“O seguimento digital permite avaliar a estabilidade das lesões, mas apresenta limitações. É importante considerar outros diagnósticos e, quando a suspeita de melanoma persiste, pode ser necessária a remoção da lesão para análise e confirmação diagnóstica”, explicou.

A programação também contemplou o tratamento cirúrgico da hidradenite supurativa, doença inflamatória crônica da pele, em apresentação conduzida pela médica dermatologista Dra. Ariane Silva Bastos Geller.

Inteligência artificial na prática médica

O uso da inteligência artificial nos consultórios foi abordado pela médica dermatologista Dra. Fabíola Welter Ribeiro. A especialista apresentou ferramentas capazes de transcrever consultas, organizar prontuários e facilitar a rotina profissional, permitindo que o médico dedique mais atenção ao paciente. Também alertou para as limitações dessas tecnologias.

“Essas ferramentas podem organizar as informações da conversa no prontuário, permitindo que o médico tenha mais atenção ao paciente. Por outro lado, ainda faltam dados suficientes para que os modelos sejam utilizados em diferentes populações. O desempenho pode ser desigual conforme a pigmentação da pele, a faixa etária e o grupo étnico”, explicou.

A palestrante ressaltou que esses recursos também podem auxiliar na análise de informações, na consulta à literatura científica e no acompanhamento clínico. No entanto, reforçou que a avaliação e as decisões terapêuticas devem permanecer sob responsabilidade do médico.

Reforma tributária e impactos nos consultórios

As mudanças previstas pela reforma tributária e seus possíveis reflexos na atividade médica foram apresentadas pela palestrante Danielle Bertagnoli. Entre os pontos discutidos estiveram a reorganização dos tributos sobre o consumo, a redução de 60% nas alíquotas de referência prevista para serviços de saúde e as diferenças de enquadramento entre procedimentos com finalidade médica e exclusivamente estética.

“A reforma busca simplificar o sistema tributário, mas exige atenção das clínicas. A previsão é de uma tributação em torno de 11% para serviços médicos. Na Dermatologia, um dos desafios será diferenciar procedimentos com finalidade médica daqueles exclusivamente estéticos, que podem ter tributação diferente”, explicou.

Cosmiatria, tricologia e segurança em procedimentos estéticos

A sessão científica coordenada pela médicas dermatologista Dra. Laura de Mattos Milman reuniu atualizações em cosmiatria e tricologia, com destaque para abordagens terapêuticas e cuidados voltados à eficácia e à segurança dos procedimentos.

A médica dermatologista Dra. Aline Roberta Campos Donati Jorge apresentou evidências científicas relacionadas ao uso de cosméticos capilares e aos desafios do tratamento da haste dos fios. A palestra enfatizou a necessidade de avaliar as características dos cabelos e selecionar produtos conforme as necessidades individuais.

“O cuidado com os fios precisa considerar as características da haste capilar e as evidências disponíveis sobre os produtos utilizados. Nem sempre o cosmético mais sofisticado é o mais indicado. O importante é compreender a necessidade de cada cabelo e orientar o paciente de maneira individualizada”, explicou.

Na palestra “Toxina botulínica: atualizações”, a médica dermatologista Dra. Alessandra Ribeiro Romiti abordou, entre outros aspectos, o tratamento do terço inferior da face. A especialista ressaltou que essas aplicações exigem conhecimento anatômico e domínio técnico, diferenciais da atuação do dermatologista que contribuem para a segurança e a confiança dos pacientes.

“Já faz bastante tempo que tratamos o terço inferior da face. É um tratamento delicado, que exige conhecimento e diferencia a atuação do médico, fazendo o paciente voltar ao consultório. Tratamos basicamente o depressor do ângulo oral e o mentoniano. O depressor do lábio inferior, só quando há assimetria, seja natural ou causada pela nossa toxina”, afirmou.

O lipedema, condição crônica caracterizada pelo acúmulo desproporcional de tecido adiposo, principalmente nos membros inferiores, também integrou os debates. A médica dermatologista Dra. Taciana de Oliveira Dal’Forno Dini destacou o crescimento das publicações científicas sobre o tema na última década, especialmente nos dois anos mais recentes.

“Acomete principalmente mulheres, com aumento desproporcional e simétrico do tecido adiposo, sobretudo nos membros inferiores. Uma característica é a persistência desse acúmulo mesmo após a perda de peso”, explicou.

O encontro incluiu ainda uma apresentação sobre rejuvenescimento facial com tecnologias que atuam em diferentes camadas da pele, conduzida pela médica dermatologista Dra. Juliana Merheb Jordão. O encerramento do bloco foi dedicado às complicações relacionadas ao uso de bioestimuladores de colágeno, com análise de casos clínicos e participação das médicas dermatologistas Dra. Alessandra Ribeiro Romiti, Dra. Taciana de Oliveira Dal’Forno Dini, Dra. Juliana Merheb Jordão, Dra. Ana Paula Dornelles Manzoni e a médica radiologista Dra. Marilia Maia de Gonçalves. 

Abertura destaca integração e atualização profissional

A integração entre a SBD e a SBD-RS marcou a abertura dos encontros em Porto Alegre. Os presidentes das entidades ressaltaram a oportunidade de reunir diferentes áreas da especialidade e promover discussões que vão além dos temas científicos, incluindo questões presentes na rotina dos consultórios.

O presidente da SBD, Dr. Carlos Baptista Barcaui, celebrou a realização conjunta da programação nacional e regional e destacou a diversidade dos conteúdos apresentados.

“É uma satisfação enorme juntar três eventos em um só, aproximando a nacional e a regional. Além dos temas científicos, como Dermatologia Pediátrica e Oncologia, tivemos a presença de uma advogada tributarista para orientar os colegas sobre a reforma tributária. Isso mostra o caráter inovador do encontro”, afirmou.

Já o presidente da SBD-RS, Dr. Juliano Peruzzo, ressaltou a presença crescente da inteligência artificial na Medicina e a necessidade de atualização permanente dos profissionais.

“A inteligência artificial vem para nos auxiliar na prática clínica, e o dermatologista precisa saber utilizá-la a seu favor, seja na busca por artigos científicos, seja no acompanhamento e na comunicação com o paciente. Fazia muitos anos que não recebíamos um evento da SBD nacional. É uma honra reunir toda essa programação em Porto Alegre”, declarou.

Programação de sábado

A 33ª Jornada Sul-Brasileira de Dermatologia e a 51ª Jornada Gaúcha de Dermatologia seguem neste sábado (17/10), com debates sobre avanços da medicina regenerativa, tratamentos para cicatrizes, uso de lasers no melasma e cuidados estéticos após o emagrecimento rápido. Também estão previstas discussões sobre a segurança de procedimentos em pacientes com outras doenças, tendências coreanas de cuidados com a pele, medidas preventivas antes do uso de medicamentos imunobiológicos, testes de contato e intervenções nas unhas. O encerramento contará com a premiação dos trabalhos científicos apresentados durante o evento.

 

A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) é a única instituição reconhecida oficialmente pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Associação Médica Brasileira (AMB) como representante dos dermatologistas no Brasil. Os médicos dermatologistas a ela ligados precisam obter o Título de Especialista que atesta a sua capacitação. A secção SBD-RS é a sua representante no território do Rio Grande do Sul.

PlayPress | SBD-RS - Sociedade Brasileira de Dermatologia – Secção do Rio Grande do Sul | Redação e foto: Marcelo Matusiak

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