Relatos ligados ao ambiente escolar mostram como memes, piadas e estereótipos podem reproduzir preconceitos sem serem reconhecidos como tal; educador orienta como as escolas devem agir.
Com a retomada das aulas no segundo semestre, especialistas chamam atenção para a importância de identificar e enfrentar diferentes formas de discriminação no ambiente escolar, incluindo o antissemitismo, que circula como memes, piadas e “brincadeiras”. O Relatório de Antissemitismo 2025, produzido pela Confederação Israelita do Brasil (CONIB), reúne relatos como o de uma criança judia de 8 anos que foi ofendida por um colega em razão de sua identidade judaica, além do compartilhamento de mensagens antissemitas e de conteúdo negacionista sobre o Holocausto em um grupo de WhatsApp formado por ex-alunos de uma escola.
Para Rafael Korman, vice-presidente de Relações Comunitárias da Federação Israelita do Rio Grande do Sul (FIRS) e doutor em Educação pela PUCRS/Harvard, o risco está justamente na naturalização desses conteúdos.
“O antissemitismo raramente chega como um discurso explícito de ódio. Ele aparece de forma mais sutil: piadas sobre judeus e dinheiro, teorias sobre controle da mídia ou influência mundial e generalizações que tratam todos os judeus como um bloco homogêneo. Quando circula como brincadeira, pode passar despercebido, e é aí que se normaliza”, explica.
Ao identificar uma situação, a primeira orientação é não ignorar nem tratar o episódio apenas como “coisa de criança”. Segundo Korman, o professor deve interromper a manifestação de forma calma e firme, sem expor ou humilhar quem reproduziu o conteúdo. Depois, o caso pode ser transformado em oportunidade pedagógica, explicando de onde vem aquele estereótipo, por que ele é discriminatório e quais consequências sua repetição pode produzir.
Outro cuidado é não colocar sobre o estudante judeu a responsabilidade de explicar sua religião, defender sua comunidade ou responder por acontecimentos políticos. “A regra de ouro é não transformar o aluno judeu em porta-voz. A discussão precisa acontecer de forma ampla e pedagógica, sem transferir para quem sofreu o preconceito a obrigação de educar os demais”, afirma.
Discussões sobre Israel também exigem atenção. Korman ressalta que críticas a ações e decisões do governo israelense fazem parte do debate político legítimo. “A fronteira se cruza quando a crítica deixa de ser sobre o que um governo faz e passa a responsabilizar ou generalizar os judeus como grupo.”
Para a FIRS, a prevenção deve ir além da reação a episódios isolados. Formação de professores, atenção aos conteúdos que circulam entre estudantes e a abordagem permanente do respeito às diferenças são caminhos para evitar que o preconceito seja naturalizado.
“A escola que combate o antissemitismo de verdade é aquela que também combate o racismo e todas as outras formas de discriminação. Mais do que reagir a um caso, o desafio é construir uma cultura em que o preconceito não encontre espaço para ser tratado como normal”, conclui Korman.
O Relatório do Antissemitismo pode acessado pelo link: Relatório CONIB 2025
Sobre a FIRS
A Federação Israelita do Rio Grande do Sul (FIRS) é a entidade representativa da comunidade judaica gaúcha, atuando na defesa de seus direitos, no fortalecimento de sua identidade e na promoção do diálogo inter-religioso e intercultural. Com um compromisso ativo com a memória, a educação e a luta contra o antissemitismo, a FIRS também desenvolve ações sociais e culturais que contribuem para a diversidade e o respeito mútuo na sociedade.
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