A suspensão das exportações de carne brasileira pela União Europeia (UE) acendeu um sinal de alerta para o setor agropecuário. Para Ieda Queiroz, coordenadora do setor de contratos e agronegócios do CSA Advogados, o Brasil enfrenta um risco concreto de perda de competitividade internacional caso não consiga demonstrar, de forma prática e auditável, que cumpre integralmente as regras sanitárias exigidas pelo bloco europeu.

“A UE não trabalha com presunção de conformidade; ela exige evidências. Se o Brasil não demonstrar, de forma verificável, que cumpre as regras de uso de antimicrobianos e de rastreabilidade animal, o impacto será duradouro. Não é apenas sobre a Europa — é sobre a credibilidade do país no comércio global de proteínas”, afirma Ieda Queiroz, do CSA Advogados
O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) informou que está reunindo informações técnicas e relatórios de fiscalização para encaminhar às autoridades europeias. O objetivo é esclarecer dúvidas regulatórias e demonstrar avanços recentes na governança sanitária brasileira. A iniciativa busca acelerar o diálogo, mas não altera o ponto central: a UE condiciona qualquer reabilitação do Brasil à comprovação prática de conformidade em toda a cadeia produtiva — do manejo no campo ao processamento industrial.
Em abril de 2026, o Governo Federal proibiu o uso de antibióticos como promotores de crescimento na pecuária, incluindo substâncias como avoparcina, bacitracina e virginiamicina. A medida foi vista como um avanço, mas não atende, por si só, às exigências europeias.
A UE requer rastreabilidade individual dos animais, auditorias independentes e documentação que comprove, de ponta a ponta, o cumprimento das regras sanitárias. “A distância entre a norma e a prática ainda é grande. Sem sistemas integrados de rastreabilidade e auditorias robustas, o Brasil não conseguirá atender ao padrão europeu — e isso leva tempo, investimento e coordenação entre governo e setor privado”, explica a advogada.
Adequação estrutural pode levar anos
Uma investigação conduzida pela Irish Farmers' Association em quatro estados brasileiros no segundo semestre de 2025 concluiu que a adaptação plena às exigências europeias tende a ser um processo de longo prazo. O relatório identificou falhas de rastreabilidade, inconsistências documentais e grande variação entre regiões e produtores.
A resistência antimicrobiana (AMR) é uma pauta global crescente. Países que seguem padrões sanitários internacionais — especialmente mercados islâmicos — podem adotar medidas semelhantes às da UE. Além disso, mesmo após eventual reabilitação, exportadores brasileiros ainda terão de cumprir o Regulamento Europeu de Desmatamento (EUDR), que entra em vigor no segundo semestre de 2026 e adiciona novas exigências de comprovação ambiental.
Impacto econômico já é perceptível
Em 2025, o Brasil exportou US$ 1,8 bilhão em carnes para a UE, totalizando 368,1 mil toneladas. O bloco é o segundo maior destino das proteínas brasileiras em valor. A suspensão já pressiona preços futuros e negociações internacionais. Sem comprovação rápida e estruturada de conformidade, o país pode deixar de exportar quase US$ 2 bilhões por ano.
“O Brasil tem capacidade técnica para atender às exigências, mas precisa agir com velocidade. Cada mês de atraso representa perda de mercado e de credibilidade”, conclui a especialista.
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