Hobby que não precisa virar renda extra: por que cresce a procura por atividades feitas só pelo prazer

  • 3 de setembro de 2026
  • Sol FM

Especialista em pintura terapêutica alerta para o desgaste de transformar todo passatempo em fonte de lucro e defende o direito de praticar sem buscar perfeição

Aprender a tocar violão e abrir um perfil para postar covers. Começar a correr e comprar um relógio que mede o ritmo de cada quilômetro. Fazer pão em casa e ouvir de todo mundo que aquilo daria um bom negócio. A lógica que transforma qualquer interesse em projeto virou tão automática que muita gente já não sabe mais como é fazer alguma coisa sem cobrar nada de si mesma.

É contra esse automatismo que trabalha Marco Freitas, carinhosamente chamado de Markito, professor e especialista em pintura terapêutica à frente da Aquarela Zen. Com mais de seis anos ensinando aquarela como prática de atenção plena, mais de 16 mil alunos e uma audiência de mais de 380 mil pessoas nas redes sociais, ele diz que a pergunta mais comum nas primeiras aulas não tem nada a ver com técnica.

"Muita gente chega querendo saber em quanto tempo vai conseguir vender uma pintura. É uma pergunta legítima, mas ela revela uma coisa: a pessoa ainda não se autorizou a fazer aquilo só porque gosta. Ela precisa de uma justificativa produtiva para ocupar o próprio tempo", afirma.

O custo de monetizar tudo

Para ele, o problema não é ganhar dinheiro com arte, e sim a inversão que acontece quando essa possibilidade entra cedo demais.

"No momento em que o hobby vira meta, ele passa a ter prazo, cobrança e comparação. E aí ele deixa de cumprir a função que trouxe a pessoa até ali, que era descansar a cabeça. A pessoa saiu de um lugar de pressão e entrou em outro, só que agora com pincel na mão", explica.

Markito conta que o próprio caminho começou pelo avesso disso. Oito anos atrás, atravessava o pior período da própria vida, marcado por crises de ansiedade. A aquarela entrou como respiro, sem qualquer projeto por trás, e só muito depois virou profissão.

Fazer sem buscar a perfeição

Na avaliação do professor, o antídoto é simples de descrever e difícil de praticar: recuperar a permissão de estar começando.

"A gente perdeu a permissão de fazer alguma coisa só por fazer, sem que ela precise ficar perfeita. Adulto tem vergonha de estar no início de qualquer coisa, e isso fecha muitas portas. Na aquarela eu ensino justamente o contrário, a ver a tinta se misturando com a água sem medo de borrar, de errar no tom, de sair diferente do esperado. Quando a pessoa faz as pazes com o inesperado, ela relaxa. E é aí que a prática começa a fazer efeito."

Ele resume a mudança em uma frase que costuma repetir em aula: pintar não é dom, é escolha.

Quatro sinais de que o hobby virou trabalho

O professor sugere alguns sinais de alerta para quem quer avaliar a própria relação com um passatempo:

Você só pratica quando o resultado vai ser mostrado. Se a atividade depende de plateia, ela já mudou de função.

Existe meta. Quantidade por semana, prazo para melhorar, comparação com o progresso de outra pessoa.

Você se sente culpado ao parar. Descanso não gera culpa. Compromisso gera.

A conversa sobre o hobby virou conversa sobre monetização. Quando todo mundo ao redor pergunta se você já pensou em vender, e você começa a levar a pergunta a sério cedo demais.

Apoio, não tratamento

Markito faz questão de delimitar o alcance da prática: nenhum conteúdo dessa natureza deve ser tomado como aconselhamento médico ou psicológico.

"Antes de mais nada, é importante frisar que qualquer sintoma relacionado à saúde mental deve ser comunicado e acompanhado por um profissional da saúde especializado na área. A arte e a prática da atenção plena entram como apoio nesse processo, seja para quem está em tratamento ou para quem apenas sinta necessidade de desacelerar e ter momentos de conexão mais interna."

Quem quiser experimentar pode participar da aula ao vivo aberta ao público, gratuita, realizada todas as quartas-feiras às 10h.

Sobre a Aquarela Zen

Aquarela Zen é a marca criada por Marco Freitas, o Markito, professor e especialista em pintura terapêutica com formação em terapias integrativas. Há mais de seis anos ensinando aquarela como prática de atenção plena, já reúne mais de 16 mil alunos e uma audiência de mais de 380 mil pessoas nas redes sociais. Seu principal projeto é a Escola da Aquarela, comunidade online com aulas ao vivo semanais.


Agência Souk | Foto: Marco Freitas

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